Um pássaro que havia desaparecido da natureza local há mais de um século voltou a nascer em liberdade no semiárido brasileiro, reacendendo a esperança de pesquisadores e ambientalistas na recuperação de espécies ameaçadas de extinção. O feito aconteceu na Reserva Natural Serra das Almas, localizada na divisa entre os estados do Ceará e Piauí.
Os filhotes do raro periquito cara-suja nasceram em vida livre no dia 17 de março de 2026 e marcaram a primeira reprodução natural da espécie na região em mais de 100 anos.
Conhecido cientificamente como Pyrrhura griseipectus, o periquito cara-suja é uma ave típica da Caatinga e considerada uma das mais raras do país. O animal possui plumagem predominantemente verde, peito acinzentado e uma mancha escura no rosto, característica que originou o nome popular.
Ao longo das últimas décadas, a espécie sofreu forte redução populacional devido ao desmatamento, à perda de habitat e ao tráfico ilegal de animais silvestres. Durante cerca de 114 anos, praticamente não houve registros confiáveis da ave na Reserva Serra das Almas.
Projeto ajudou no retorno da espécie
O retorno do periquito cara-suja à natureza começou a ser planejado em 2024, com a criação do projeto Refaunar Arvorar. A iniciativa reúne a Associação Caatinga, a ONG Aquasis e o Parque Arvorar, ligado ao Beach Park.
Antes de serem reintroduzidas na natureza, as aves passaram por uma série de cuidados, incluindo avaliação veterinária, quarentena e adaptação em viveiros especiais.
Grande parte dos exemplares utilizados no projeto havia sido resgatada do tráfico de animais silvestres. Por isso, os pesquisadores trabalharam no fortalecimento do voo, reconhecimento de alimentos típicos da Caatinga e reconstrução dos vínculos sociais entre os indivíduos.
Além do preparo das aves, a reserva também passou por adaptações, como a construção de viveiros de aclimatação e treinamento de guarda-parques. Cerca de 40 comunidades do entorno participaram das ações de proteção ambiental.
Reprodução histórica surpreendeu pesquisadores
Em fevereiro deste ano, os pesquisadores localizaram os primeiros ovos da espécie em caixas-ninho instaladas na reserva para simular ocos naturais de árvores. Ao todo, foram encontrados 33 ovos, número considerado acima das expectativas.
Semanas depois, nasceram os primeiros filhotes em liberdade, fato considerado histórico pela equipe responsável pelo projeto.
Atualmente, cerca de 23 periquitos cara-suja adultos vivem soltos na reserva. A expectativa dos pesquisadores é de que a população possa dobrar ainda em 2026, caso as condições ambientais permaneçam favoráveis.
Desafios para preservação continuam
Apesar do avanço, os especialistas alertam que os desafios para garantir a sobrevivência da espécie continuam. Os filhotes ainda enfrentam riscos naturais, como predadores, chuvas intensas e dificuldades na alimentação.
Outro ponto considerado fundamental é a preservação da vegetação nativa da Caatinga. Segundo os pesquisadores, a sobrevivência do periquito cara-suja depende da recuperação e manutenção das florestas serranas da região.
Para ambientalistas, o nascimento dos filhotes representa um marco importante para a conservação ambiental brasileira e demonstra que espécies desaparecidas localmente podem voltar à natureza por meio de planejamento, ciência e preservação ambiental.


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