O músico e compositor Chico Buarque celebra a folia carnavalesca nos versos: “Vai passar nessa avenida um samba popular(...)/E um dia afinal/Tinham o direito a uma alegria fugaz/Uma ofegante epidemia/Que se chamava carnaval”. A canção ecoa na sua musicalidade uma festa como espaço de subversão, deboche e suspensão das hierarquias sociais. Mas ao longo do tempo, processo de canibalização mercantil desfigura a festividade momesca. A linguagem dos negócios opera na estética, nos espaços de segregação onde quem entra em quem fica de fora e na padronização das expressões culturais.
Um exemplo dessa monetização predatória estão na lógica dos grandes blocos de Salvador. Ali abadás transformaram a avenida em um balcão de negócios, onde a rua — espaço público de liberdade e subversão — é loteada para quem paga mais. .Sem falar da padronização de vestuário limitante da expressividade criativa dos foliões. A festa, que deveria ser a apoteose da ironia e da paródia contra o poder, comandada pelo business acaba por reproduzir as estruturas de desigualdade socioracial, priorizando o valor do lucro (seletivo) em detrimento da vivência comunitária e espontânea.
Ainda temos outro aspecto dessa lógica econômica: a "camarotização" da folia revela o fosso da segregação de classe e racial que insiste em se perpetuar no Brasil. Enquanto uma elite socioeconômica branca repete o modelo da casa grandes com espaços confinados, climatizados e protegidos por cordas, a estrutura que sustenta esse luxo repousa sobre o suor de uma população mestiça e negra empobrecida .
Os corpos subalternizados(as), que deveriam ser os protagonistas da festa pela ancestralidade e pelo ritmo, são empurrados para as margens ou absorvidos como mão de obra barata — cordeiros, vendedores ambulantes e catadores — trabalhando em condições precárias para garantir o prazer de quem pode pagar o pedágio da exclusividade.
Ao fim e ao cabo, temos uma inversão de valores: a festa dionisíaca por essência e como expressão da paródia e do "mundo invertido" cede lugar à manutenção de uma certa ordem social que deseja manter inalterado as disparidades da vida cotidiana. Se no Carnaval clássico o pobre se vestia de rei para zombar da coroa, das autoridades públicas e religiosas, dos rituais da tradição conservadora, no modelo atual, o "rei" compra o direito de não se misturar, reforçando a barreira que a folia deveria, teoricamente, derrubar. O lucro torna-se o regente absoluto, e a estética da mercadoria substitui a estética da resistência, transformando a catarse coletiva em um produto consumível para inglês ver, contrariando o discurso original da festa: imprevisibilidade, criatividade disruptiva, espontaneidade e irreverência.
Fonte: Herbert Medeiros - Cidades Verde


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